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Álcool em pequena quantidade faz mal ao coração?

Escrito por Pedro Veronese

Esta publicação também está disponível em: Português

Recentemente, a World Heart Federation (WHF) declarou que: “A noção amplamente difundida de que consumir quantidades pequenas a moderadas de álcool é bom para a saúde cardiovascular não é apoiada pelos dados”. Mas, e aquela história de que o consumo moderado de álcool (15,0 a 20,0 g/dia para mulheres e 30,0 a 40,0 g/dia para homens) protege o coração? Que o consumo moderado de etanol (1 dose diária para as mulheres e 2 doses diárias para os homens) reduz doença cardiovascular, aumenta o HDL colesterol e diminui disfunção endotelial? Era tudo mentira?

Uma coisa é certa, os inúmeros estudos que mostraram esses benefícios cardiovasculares são observacionais, não randomizados, retrospectivos etc. portanto, têm inúmeras limitações metodológicas. Isso é tão verdade, que eles nunca permitiram aos médicos prescrever ingestão moderada de álcool para se diminuir risco cardiovascular. Mas de certa forma, autorizavam a manutenção do consumo moderado aos que já bebiam, não havendo outras restrições médicas.

Desta forma, o leitor mais desatento deve imaginar que esta afirmação da WHF é baseada em estudos prospectivos, randomizados, com grupo controle etc., ou seja, estudos definitivos sobre o tema! Obviamente que NÃO. Boa parte das evidências trazidas pela WHF vêm de um estudo publicado no Lancet, Lancet 2018; 392: 1015–35, e que apesar de trazer informações relevantes, tem inúmeras limitações.

Mas o que este estudo demonstrou?

Os pesquisadores revelaram que conseguiram aprimorar as estimativas entre o consumo de álcool e mortes atribuíveis ao álcool e incapacidades, ajustadas por anos de vida em 195 localidades de 1990 a 2016, para ambos os sexos, entre indivíduos de 15 a 95 anos. Eles usaram 694 fontes de dados de consumo de álcool individual e populacional, juntamente com 592 estudos retrospectivos e prospectivos sobre o risco do uso de álcool. Eles produziram estimativas da prevalência de consumo atual, dos abstinentes, da distribuição do consumo de álcool entre os bebedores atuais e dos seus impactos em relação às mortes e incapacidades. Fizeram melhorias metodológicas em comparação às estimativas anteriores: primeiro, ajustando as estimativas de venda de álcool levando em consideração o consumo turístico e não registrado (clandestino); em segundo lugar, fizeram uma nova meta-análise estimando o risco relativo de 23 resultados de saúde associados ao uso de álcool; e por último, desenvolveram um novo método para quantificar o nível de consumo de álcool que minimiza o risco global para a saúde individual.

Quais as principais conclusões deste estudo?

Considerando o mundo todo, o consumo de álcool foi o sétimo fator de risco para mortes e incapacidades em 2016, contabilizando 2,2% das mortes nas mulheres e 6,8% nos homens. Entre a população de 15 a 49 anos, o consumo de álcool foi o principal fator de risco, com 3,8% das mortes em mulheres e 12,2% nos homens.

Para a população de 15 a 49 anos, as 3 principais causas de morte atribuíveis ao álcool foram tuberculose, lesões de trânsito e lesões autoprovocadas. Na população com 50 anos ou mais, foram os cânceres.

O nível de álcool que minimizou os seus danos à saúde foi de zero bebidas por semana.

Reflexões do Cardiopapers:

Note que saber exatamente o consumo diário de álcool de uma pessoa é muito difícil. Estudos observacionais, por mais bem feitos que sejam, não conseguem ter esse dado de forma totalmente confiável. Apesar de todos os esforços dos pesquisadores em refinar suas metodologias e propor inúmeros ajustes, o viés desta informação com esses desenhos de estudo permanece.

Entendemos que o consumo leve a moderado e responsável de álcool nada tem a ver com um consumo que faz um indivíduo abandonar ou esquecer de tomar seus remédios para tuberculose, ou se expor à doenças sexualmente transmissíveis por não usar preservativo devido ao seu elevado grau de embriaguez, ou assumir o volante estando alcoolizado, ou a provocar automutilações por exacerbação de doenças psiquiátricas etc. Contraindicamos fortemente o consumo de álcool para menores de idade. O consumo leve e responsável de álcool deve ser discutido com seu médico e ajustado para a sua ficha médica.

Desta forma, concluímos que ainda não temos uma resposta definitiva para este tema. O consumo leve a moderado de álcool deve ser individualizado pesando riscos e benefícios.

NÃO se recomenda introdução de álcool, mesmo que em pequenas quantidades, pensando-se em promover proteção cardiovascular em pacientes que atualmente são abstêmios à substância.

Bibliografia:

  1. https://www.thelancet.com/journals/lancet/article/PIIS0140-6736(18)31310-2/fulltext

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Sobre o autor

Pedro Veronese

Médico Especialista em Clínica Médica pela Santa Casa de Misericórdia de São Paulo.
Médico Especialista em Cardiologia pela Sociedade Brasileira de Cardiologia - SBC.
Médico Especialista em Arritmia Clínica e Eletrofisiologia pela Sociedade Brasileira de Arritmias Cardíacas - SOBRAC.
Médico do Centro de Arritmias Cardíacas do Hospital Alemão Oswaldo Cruz.
Doutor em Cardiologia pelo InCor - FMUSP.
Preceptor da Residência de Clínica Médica do Hospital Estadual de Sapopemba e Hospital Estadual Vila Alpina.
Médico Chefe de Plantão do Pronto Socorro Central da Santa Casa de São Paulo.
Professor da Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo.
Professor da Faculdade de Medicina UNINOVE.

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