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Aversão à perda: usando o medo de perder ao seu favor

Escrito por Eduardo Lapa

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Todas as condutas que tomamos na vida  são baseadas em dois princípios: Ou você quer ganhar algo, ou está com medo de perder alguma coisa que já tem. Há estudos na área de economia que mostram que o medo de perder é muito maior do que a vontade de ganhar. Exemplo: para uma pessoa que investe na bolsa de valores, o que desperta maior emoção? Perder mil reais ou ganhar mil reais? O que se viu nos estudos é que perder mil reais causa muito mais dor, muito mais sofrimento do que a alegria de ganhar mil reais. Isso é um fato que se chama de aversão à  perda.

Isso é instintivo, sabe o motivo? É só você pensar na idade da pedra. Imagina uma pessoa na floresta que escuta algum tipo de barulho. Ela não sabe se o barulho é causado por algo inofensivo como um pássaro ou se se trata de um bicho perigoso como um leão. A pessoa que tinha maior aversão à perda (no caso, de perder a vida caso se tratasse de um leão) saía correndo para fugir. Se fosse só um pássaro, isso não teria causado maiores prejuízos. Mas, se fosse de fato um leão, essa conduta teria preservado sua vida e, agora, ela poderia passar para seus descendentes seus genes. Isso fez com que, ao longo da história, os genes de indivíduos com maior temor à perda fossem passados por gerações e gerações.

Mas, o que isso tem haver com medicina? Você provavelmente deve lembrar de alguma questão que errou nas provas da faculdade de medicina ou mesmo nos exames para residência médica e que lhe marcou. Enquanto isso, várias questões que você acertou, às vezes até por sorte mesmo, não lhe causam uma lembrança tão clara. Por que isso? Aversão à perda. Aquela questão que você escorregou numa casca de banana e que lhe tirou um ponto na prova toca justamente no gatilho da aversão à perda.

Como usar isso a seu favor? Aproveite o lado bom dos erros. Perdeu uma questão da prova? Paciência. Não tem como voltar atrás. Mas tem como usar a aversão à perda a seu favor. Aproveite o gatilho mental que foi disparado pelos seus genes e assimile aquele conhecimento de forma mais profunda do que se tivesse acertado a questão. Mesma coisa da prática à beira do leito. Estava frente a um paciente com insuficiência cardíaca descompensada, PA 76×60 mmHg, achou que cabia começar um vasodilatador mas observa que em pouco tempo a pressão cai ainda mais e o paciente piora? Quando somos estudantes ou residentes erros como este podem ser muito marcantes. Mas, calma. Erros fazem parte da sua formação. São eles que vão construir boa parte dos seus conhecimentos práticos justamente pelo poder da aversão à perda. Quando você percebe que aquilo não deu certo, primeiro vai lembrar de forma vívida que existe um risco em iniciar vasodilatador em paciente já hipotenso. Mas também isso pode deflagrar discussões sobre o assunto com outros médicos que podem abrir seus olhos para outros nuances sobre este mesmo tema.

https://youtu.be/MZaap8SguPc

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Sobre o autor

Eduardo Lapa

Editor-chefe do site Cardiopapers
Especialista em Cardiologia e Ecocardiografia pela SBC

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