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Coronavírus e coração: o que eu preciso saber?

Remo Holanda
Escrito por Remo Holanda

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Com a confirmação do primeiro caso no Brasil da COVID-19, a infecção pelo novo coronavírus (originalmente reportado na China), cresce o alerta das autoridades sanitárias quanto a medidas de precaução para impedir que a epidemia se alastre. Entre os cardiologistas, a preocupação também é premente, visto que infecções respiratórias podem desencadear graves complicações nos indivíduos com histórico de doença cardíaca prévia. Por conta disso, o American College of Cardiology (ACC) emitiu em 12 de fevereiro deste ano um documento (disponível em acc.org ou em medscape.com) alertando sobre os cuidados a serem tomados diante da nova epidemia, com enfoque especial nos pacientes cardiopatas.

Como é de se esperar em epidemias desse porte, os casos que evoluem a óbito ou complicações são mais comuns nos limites de idade e entre aqueles portadores de comorbidades. Relatos preliminares mostram que uma alta proporção de pacientes com COVID-19 têm cardiopatia, com 40% dos pacientes hospitalizados pela doença tendo algum histórico prévio de doença cardiovascular ou cerebrovascular de base. Em um relato de caso de 138 pacientes (Wang D et al. JAMA 2020), 16,7% dos pacientes desenvolveram arritmias, 7,2% tiveram injúria miocárdica e 8,7% desenvolveram choque. Existe também evidência de que o novo coronavírus também tenha o potencial de causar miocardite. O documento do ACC lista algumas precauções para os cardiologistas diante da epidemia de COVID-19, entre os quais:

– O vírus é transmitido por gotículas e pode sobreviver por longos períodos fora do corpo, de tal maneira que medidas de precaução para evitar transmissão (lavagem de mãos, uso de máscaras, isolamento de casos suspeitos, etc.) são de alta prioridade;

idosos podem se apresentar com a infecção sem febre, portanto, deve-se ter atenção redobrada quanto a outros sintomas, como tosse e desconforto respiratório;

– especialistas sugerem que o uso rigoroso de terapias otimizadas para pacientes cardiopatas (como estatinas, inibidores da ECA, aspirina ou betabloqueador, a depender da cardiopatia de base) pode oferecer proteção adicional contra complicações cardiovasculares durante epidemias como a atual;

– é importantíssimo que os pacientes cardiopatas se mantenham atualizados quanto à sua vacinação, com destaque para anti-influenza e anti-pneumocóccica, tanto para prevenir complicações bacterianas secundárias do COVID-19 como para evitar uma causa alternativa de febre que pode ser confundida com o novo coronavírus.

A inter-relação entre infecções respiratórias e doenças cardiovasculares não é novidade. Em grandes epidemias por influenza, o número de mortes por eventos cardiovasculares superava as mortes decorrentes de pneumonia. Além disso, já é bem estabelecida a superimposição epidemiológica entre epidemias de influenza e aumento de casos de infarto do miocárdio e hospitalização por insuficiência cardíaca. Resposta inflamatória, dando miocárdico direto e ativação plaquetária são alguns mecanismos que explicam tais associações.  Diante disso, a vacinação e as medidas de precaução citadas são fundamentais. Uma metanálise de estudos randomizados (Udell et al. JAMA 2013) mostrou que a vacina anti-influenza reduziu em 36% a ocorrência de eventos cardiovasculares maiores (morte, infarto ou AVC). Por conta disso, estudos randomizados em andamento estão testando estratégias mais intensas de prevenção à influenza em pacientes com doença cardiovascular. O estudo INVESTED (NCT02787044) está testando uma vacina trivalente em alta dose versus a vacina quadrivalente em dose convencional em pacientes portadores de doença coronária estável ou IC. Já o estudo VIP-ACS (NCT04001504), feito no Brasil e coordenado pelo Hospital Israelita Albert Einstein, está testando dose dobrada durante a hospitalização versus dose convencional da vacina 30 dias após a alta em pacientes com síndrome coronária aguda. Os resultados desses dois estudos podem trazer grandes contribuições em relação à prevenção de eventos cardiovasculares desencadeados por quadros de infecções respiratórias.

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