Insuficiência Cardíaca Métodos complementares

Qual o melhor exame não invasivo para o diagnóstico de hemocromatose cardíaca?

Renata Ávila
Escrito por Renata Ávila

O aumento de ferro no nosso organismo pode ser secundário a desordens do metabolismo do ferro (hemocromatose) ou a anemias graves hereditárias, que requerem transfusões sanguíneas múltiplas. A deposição em excesso do ferro em órgãos e tecidos pode levar à toxicidade, visto que este elemento é capaz de catalisar a conversão de peróxido de hidrogênio em radicais livres causando danos às membranas celulares, proteínas e ao DNA. Os órgãos geralmente mais afetados são o fígado e o coração.

O acometimento cardíaco leva ao que chamamos de cardiomiopatia siderótica, sendo a insuficiência cardíaca e as arritmias as principais causas de morte. Importante saber que essas complicações podem ser evitadas no caso de diagnóstico precoce e início de terapia quelante de ferro. Para a prevenção e o tratamento da sobrecarga cardíaca de ferro, torna-se necessária uma ferramenta de detecção eficaz dos pacientes em risco.

Diante deste cenário, como devemos proceder essa investigação?

A função cardíaca monitorada convencionalmente pelo ecocardiograma permanece “normal” até o desenvolvimento dos sintomas clínicos, momento em que a mortalidade já é relativamente alta. Uma vez estabelecida a insuficiência cardíaca, o prognóstico é geralmente ruim.

Parâmetros obtidos em exames de sangue, como a dosagem de ferritina não são métodos acurados para refletir a sobrecarga de ferro nos órgãos. Estudos mostraram que a dosagem de ferritina sérica apresenta baixa correlação com o risco de desenvolver insuficiência cardíaca e arritmias.

Conforme citado acima, o fígado é um órgão bastante acometido na hemocromatose, entretanto também não foi observada uma correlação entre a deposição de ferro cardíaco e hepático, o que desafia a visão de que o ferro do fígado prediz adequadamente a carga de ferro cardíaco. Por outro lado, a quantificação do depósito do ferro miocárdico pode ser realizada precocemente por meio da ressonância magnética cardíaca (RMC) utilizando os valores da sequência do T2* (T2 estrela). Esta é a modalidade de imagem mais sensível e específica no diagnóstico de depósito de ferro miocárdico e apresenta excelente correlação com a biópsia cardíaca.

O que seria a técnica do T2*? A sequência de T2* significa a velocidade da perda de sinal de um determinado tecido. O ferro é uma substância paramagnética que produz perturbações no campo magnético provocando uma rápida queda da intensidade de sinal e encurtamento do valor de T2*. De forma prática, valores elevados de ferro tecidual reduzem o valor de T2* (quanto mais ferro, menor o T2*), sendo valores < 20 ms considerados de risco para desenvolvimento de insuficiência cardíaca e arritmias. Cerca de 98% dos pacientes com T2* < 10 ms evoluem para insuficiência cardíaca e 83% dos com T2* < 20 ms apresentam arritmia.

DICA: Importante ressaltar que para esta avaliação não é necessário o uso de contraste a base de gadolínio e é um exame relativamente rápido.

É possível também calcular o peso seco do ferro em mg/g de miocárdio, também chamado de myocardial iron concentration (MIC).

Estudos mostram que o T2* do miocárdio é um indicador precoce de envolvimento cardíaco na sobrecarga de ferro e sofre alterações antes mesmo da fração de ejeção. Também pode ser utilizado como controles seriados, principalmente no acompanhamento periódico da resposta pós tratamento, visto que a RMC é um método que não utiliza radiação ionizante.

Resumo:

  • Depósito de ferro miocárdico pode ser detectado pela RMC usando a técnica T2* e sua principal aplicação é na estratificação do risco de desenvolvimento de insuficiência cardíaca e arritmias nos pacientes com suspeita de sobrecarga férrica, bem como no controle de seu tratamento.
  • Sobrecarga de ferro no coração não pode ser predita por ferritina sérica ou ferro hepático e a avaliação convencional pelo ecocardiograma só detecta doença avançada.
  • A técnica T2* permite a quantificação de ferro tecidual de forma não invasiva, acurada e com boa reprodutibilidade, podendo ser utilizada em centros que disponham de RMC.

Continuem acompanhando nossa série  sobre indicações de ressonância cardíaca…

Referências:

  1. Carpenter JP, He T., Pennell D.J., et al. On T2* Magnetic Resonance and Cardiac Iron. Circulation.2011;123:1519-1528.
  2. Kirk P, Roughton M., Pennell D.J., et al. Circulation.2009;120:1961-1968.
  3. Wood J.C, Duessel M.O., Moats R., et al. Cardiac Iron Determines Cardiac T2*, T2, and T1 in the Gerbil Model of Iron Cardiomyopathy. Circulation.2005;112:535-543.
  4. Anderson LJ, Holden, Pennell D.J., et al. European Heart Journal (2001) 22, 2171–2179.

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Sobre o autor

Renata Ávila

Renata Ávila

Residência em Cardiologia pelo Instituto Dante Pazzanese de Cardiologia Título de Especialista em Cardiologia pela SBC
Especialista em Tomografia e Ressonância cardiovascular pelo InCor/FMUSP
Médica do setor de Tomografia e Ressonância Cardíaca da Rede D'Or São Luiz:
- Hospital Esperança
- Hospital Esperança Olinda

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