Coronariopatia

Disfunção erétil e doença cardiovascular – como manejar?

– Disfunção erétil é um grande preditor de doença arterial coronária, principalmente em pctes <60 anos. Inversamente, inúmeros pctes com coronariopatia conhecida têm disfunção erétil (até 75% dos casos, dependendo da série). Assim, é importante o cardiologista saber manejar os pctes que se apresentam com as 2 condições.

– Disfunção erétil é definida como a incapacidade de atingir e manter uma ereção adequada para realizar o intercurso sexual. É considerada um fator de risco cardíaco, aumentando a mortalidade (HR 1,43) às custas  de eventos cardiovasculares. Costuma preceder estes eventos em 3 a 5 anos o que dá ao cardiologista uma janela terapêutica para atuar sobre os fatores de risco do pcte.

– Há alguns especialistas que advogam que a disfunção erétil seja considerada um equivalente de doença coronariana, indicando assim tratamento intensivo com estatinas para manter LDL <100 e de preferência <70. Isto, contudo, ainda não é preconizado pelos guidelines.

– Todos os pctes com disfunção erétil devem ter a testosterona sérica dosada.

– Algumas medicações cardiovasculares estão ligadas a aumento de disfunção erétil: betabloqueadores, diuréticos tiazídicos, antagonistas de canais de cálcio, estatinas e ieca. Se a disfunção erétil surge áté 4 semanas após o início de uma dessas medicações, é interessante que se pare o remédio podendo-se mudar para uma droga de outra classe ou então para uma substância diferente da mesma classe. Bloqueadores do receptor da angiotensina e o nebivolol podem diminuir a ocorrência de disfunção erétil.

– E quando o pcte com cardiopatia e disfunção erétil chega no consultório e pergunta: doutor, posso ter relações sexuais? O que fazer? Preciso solicitar algum exame? Posso liberar o pcte??? Para uniformizar a conduta um consenso de especialistas definiu critérios objetivos para ajudar o clínico. Os pctes são divididos em 3 categorias de risco: baixo, intermediário e alto risco de complicações ao realizar atividades sexuais.

1- Baixo risco – exemplo – pctes assintomáticos com <3 fatores de risco cardiovasculares; HAS controlada; angina estável CCS 1; pós revascularização (PCI ou RM) sem sinais de isquemia residual importante; IAM há mais de 6 semanas; FA com FC controlada; ICC NYHA 1 – pode realizar atividade sexual sem necessidade de exames complementares

2- Risco intermediário – exemplo – assintomático com 3 ou mais fatores de risco cardiovasculares; angina CCS 2 ou maior; IAM há mais de 2 semanas e há menos de 6 semanas; ICC NYHA 2; vasculopatia peirférica sintomática (AVC prévio, doença arterial periférica, etc) – realizar exames adicionais como provas isquêmicas não invasivas (cintilografia miocárdica, teste ergométrico, eco stress)

3- Alto risco – exemplo – IAM há <2 semanas; angina instável; HAS não controlada; ICC NYHA 3 ou 4; arritmias de alto risco; estenose valvar importante; cardiomiopatia hipertrófica – não realizar atividade sexual enquanto a cardiopatia não estiver estabilizada

– Em pctes com coronariopatia e disfunção erétil os inibidores de fosfodiesterase (ex: sildenafil) podem ser usados com segurança, devendo ser evitados apenas naqueles que usam nitratos devido ao risco de hipotensão importante. 

– A dose inicial do sildenafil (viagra) em pctes com disfunção erétil é de 50 mg demorando a medicação 60 minutos para atingir o pico de ação. Assim, deve ser ingerida 30-60 minutos antes de relações sexuais. Em pctes com >65 anos, ClCr<30 mL/min, disfunção hepática ou em uso de medicações que inibam o citocromo P450 3A4 (eritromicina, cetoconazol, inibiodres de protease, por exemplo) – iniciar com 25 mg. A dose máxima é de 100 mg.

– Referência:  Bryan G. Schwartz, MD; Robert A. Kloner, MD, PhD. Erectile dysfunction and cardiovascular disease. Circulation 2011; 123; 98-101

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Sobre o autor

Eduardo Lapa

Eduardo Lapa

Editor-chefe do site Cardiopapers
Especialista em Cardiologia e Ecocardiografia pela SBC

6 comentários

  • Lapa, parabéns pela revisão. Gostaria, se pudesse, que tirasse umas dúvidas; como sabemos os paciente cardiopatas que comprovadamente tem benefício do uso de betabloqueadores são os pos-infartados e aqueles com disfunção cardíaca; então,como manejar aqueles que nestas situações usam betabloqueadores e possuem disfunção erétil? Associar viagra ao betabloqueador (com o paciente já betabloqueado) não daria tb o mesmo efeito hipotensor? Retirar o betabloqueador?(essa acho que não..) Valeu, pessoal. Abraços

  • Fernando,
    como disse no texto o bbloq pode causar sim disfunção erétil mas isto não é a regra. Tanto é que no texto é mencionado que o grande lance é notar se a disfunção surge nas primeiras 4 semanas após a introdução da medicação. Se o cara já tinha disfunção erétil, infarta, você começa bbloq e a disfunção continua na mesma, deixa quieto – continua a medicação pois o seu efeito na mortalidade pós IAM é muito significante.
    Em relação ao efeito hipotensor, não há maiores riscos com o bbloq não. A questão do nitrato e do sildenafil é que ambos atuam no metabolismo do GMPc – assim o somatório das duas medicações pode causar um efeito hipotensor exagerado por este motivo. De todos os hipotensores o outro que tem que ter cuidado é o alfa bloqueador (ex: prazosin, etc).
    Um abraço.

  • Eduardo partabens seus artigos são exelentes.Termin ei a residençia agora vou prestar a pçrova de titulo.Voce me indicaria algum material especifico?
    Abs e aguardo resposta.

  • Marcelo,
    obrigado pelos elogios. O site surgiu justamente para o residente de cardio ter tempo de ler alguma coisa rápida e concisa para se manter atualizado.
    Para a prova de título o principal material é o livro de questões laranja, com as provas dos últimos anos. Eles repetem muitas questões.
    REcentemente saiu tb o livro da SBC. Fui inclusive um dos revisores do livro. Segundo a própria SBC esta vai ser a fonte para as provas futuras.
    Ano que vem devemos lançar o manual de bolso cardiopapers. Aguarde.

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