Nefrologia

FIGARO-DKD: uma nova opção para reduzir risco cardiovascular em nefropatas?

Escrito por Luís Sette

Esta publicação também está disponível em: Português

Sabemos que a doença renal crônica (DRC) exacerba o risco cardiovascular em pacientes com diabetes mellitus tipo 2 (DM2). O risco se eleva mesmo em estágios iniciais da DRC com a relação albumina/creatinina (RAC ) > 10mg/g e a taxa de filtração glomerular (TFG) < 75mL/min/1.73m2. Sabemos também que o risco de evento CV é maior até mesmo do que a evolução do pacientes para DRC estágio 5 ( TFG < 15 mL/min/1.73m2). Um dos mecanismo para a elevação deste risco é a hiperativação dos receptores mineralocorticoides. O estudo Cardiovascular Events with Finerenone in Kidney Disease and Type 2 Diabetes (FIGARO-DKD) foi publicado no dia 28 de Agosto no The New England Journal of Medicine e teve como objetivo avaliar se o Finerenone ( antagonista seletivo e não esteroidal dos receptores mineralocorticoides) é capaz de reduzir os riscos de eventos cardiovasculares e morte por causas cardiovasculares entre pacientes com DRC estágio 2 a 4 e albuminúria moderadamente ( 30-300mg/g ou seja A2) elevada ou na DRC estágios 1 ou 2 e albuminúria severamente aumentada (> 300mg/g, ou seja, A3).

Nota: qual a diferença dessa nova droga para, digamos, a boa e velha espironolactona que é o antagonista mineralocorticoide que mais usamos na prática? Primeiro, a seletividade dele é maior. Segundo, é não esteroidal. Essa combinação faz com que o finerenone cause bem menos hipercalemia e ginecomasita. Uma droga com menor potencial de causar hipercalemia é bem interessante no cenário de pacientes com DRC

Metodologia Simplificada do FIGARO-DKD:

  • Ensaio clínico, randomizado, placebo controlado, multicêntrico de fase 3
  • Critérios de Inclusão
    • ≥18 anos
    • DM2 com albuminúria
    • Pré-tratado IECA ou na dose máxima tolerada marcada
    • Potássio sérico <= 4,8 mEq / L
  • Critério de Exclusão:
    • Doença renal não diabética, incluindo estenose da artéria renal clinicamente relevante
    • Hipertensão arterial não controlada (PAS) ≥170 mmHg ou (PAD) ≥110 mmHg
    • Diagnóstico clínico de insuficiência cardíaca crônica com fração de ejeção reduzida (HFrEF) e sintomas persistentes (NYHA) classe II – IV
    • Diálise dentro de 12 semanas da consulta inicial
    • Aloenxerto renal implantado ou transplante renal programado nos próximos 12 meses
    • Hemoglobina glicada (HbA1c)> 12%
  • Pacientes com DM2 e albuminúria eram classificados
    • RAC 30 to < 300 mg/g E TFG 25 to ≤ 90 mL/min/1.73 m2 OU
    • RAC ≥ 300 mg/g E TFG ≥ 60 mL/min/1.73 m2

O desfecho primário foi o famoso MACE: Tempo até morte cardíaca, infarto agudo do miocárdio não fatal, acidente vascular encefálico não fatal e hospitalização por insuficiência cardíaca.

Desfecho secundário:  composto de insuficiência renal, diminuição sustentada da TFG em 40% ou morte renal. A  Insuficiência renal foi definida TFG < 15 ml /min/1,73 m2 , diálise ou transplante.

RESULTADOS

No FIGARO-DKD, foram avaliados 3686 pacientes no grupo FINERENONE e 3666 pacientes no grupo placebo. O estudo FIGARO-DKD teve como resultado redução no desfecho primário com Hazard ratio, 0.87 (95% CI, 0.76–0.98) P=0.03 com NNT de 47. Quando avaliado cada componente do MACE foi observado que o único isoladamente que apresentou significância estatística foi a hospitalização por IC (HR 0.71 –  IC(95%), 0.56–0.90). Não houve benefício no desfechos secundários.

Eventos adversos foram maiores nos pacientes do grupo intervenção, principalmente, hipercalemia que ocorreu em K  >5.5 mEq/L  (13.5% vs 6.4% do grupo controle) e K >6.0 mEq/L  (2,3% vs 1,2 no grupo placebo) ambos com significância estatísticas

COMENTÁRIOS

Esta droga possui mecanismo de ação bem conhecido, mas limitado devido aos riscos maiores de hipercalemia dos seus antecessores (espironolactona e eplerenone).

Apesar de obter diferença no desfecho primário, este foi modesto, uma vez que apresenta NNT de 47 e que após avaliar os subgrupos, houve redução apenas de internamento por IC (ela puxou o barco).

A maioria dos pacientes não estavam em uso de terapia, hoje estabelecida como padrão, ou seja, em uso de iSGLT2 ( o estudo alocou pacientes entre 2015 e 2018 com convlusão das análises em fevereiro de 2021). Os autores revelaram que em estudos pré clínicos e em subanálises o benefício foi mantido quando comparados aqueles que usaram ou não os iSGLT2 ou agonistas GLP-1.

Ainda uma droga indisponível, cara e com efeitos modestos. Além de, atualmente, não poder ser comparada com o tratamento padrão da doença renal do diabetes.

Vamos aguardar novos estudos… quem sabe no futuro a terapia tripla ( IECA/BRA + iSGLT2 + Finerenone) seja o tratamento padrão?

 Quer ver nossa revisão sobre doença renal crônica? Checa abaixo

 

 

 

 

Curso Cardiopapers

Banner Atheneu

Deixe um comentário

Sobre o autor

Luís Sette

Formado em Medicina pela UPE
Residência em Clínica Médica UNIFESP
Residência em Nefrologia pela USP
Título de Especialista em Nefrologia pela Sociedade Brasileira de Nefrologia
Mestre em Ciências da Saúde pela UFPE
Professor da Disciplina de Nefrologia da UFPE

Deixe uma resposta

Seja parceiro do Cardiopapers. Conheça os pacotes de anúncios e divulgações em nosso MídiaKit.

Anunciar no site

%d blogueiros gostam disto: