Lípides

Novidades em relação ao uso de estatinas em gestantes?

Escrito por Alexandre Lucena

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A gestação aumenta substancialmente os níveis das lipoproteínas. Isso ocorre devido à elevação do estrógeno e progesterona produzidos pela placenta. Os triglicerídeos se elevam 2 a 3x em relação ao valor pré-gestacional e o colesterol total pode aumentar de 2 a 5x. Os valores só voltam ao normal, em média, no final do puerpério. Um comportamento diferente ocorre entre as frações lipoproteicas. o HDL-c aumenta 50% até a 24ª semana e começa a cair chegando a um valor de 15% acima do pré-gravídico no período do termo. Já o LDL-c aumenta em paralelo com o CT e retorna aos níveis prévios após a 8ª semana do pós-parto. Podemos usar estatinas nas gestantes com hipercolesterolemia?

Seria então a gestação um estado aterogênico?

A resposta não é tão simples. A incidência de doença isquêmica é muito maior em gestantes que em não gestantes da mesma faixa etária, mas o principal mecanismo é a dissecção espontânea de coronárias. Na outra mão há um fator temporal na equação. O tempo de uma gestação não seria suficiente para desenvolver DAC. O que sabemos é que situações como a hipertensão arterial na gestação (pré-eclâmpsia) e o diabetes gestacional hoje são considerados fatores de risco para doença cardiovascular no futuro. Nessas situações surge uma grande disfunção endotelial.

Estatinas podem ser teratogênicas?

Dê uma olhada nesse nosso post para uma breve revisão sobre o assunto.

Há algo novo sobre o uso de estatinas em gestantes?

Recentemente, pequenos estudos mostraram benefícios da pravastatina, com redução da taxa de pré-eclâmpsia (PE), redução de PE com características graves, internações, prematuridade e baixo peso ao nascimento. É importante ressaltar também que nesses pequenos estudos não foi identificado teratogenicidade associada ao uso pravastatina.

Entre os efeitos conhecidos das estatinas, podemos destacar:

  • proliferação de células musculares lisas, reduzindo a vasocontrição;
  • inibição da adesão plaquetária diminuindo tromboxano A2 e consequentemente diminui os eventos trombóticos;
  • inibição da adesão, ativação e liberação de citocina pró-inflamatórias;
  • aumento da mobilização de células tronco, melhorando a neovascularização e reendotelialização;
  • nas células trofoblásticas placentárias aumenta do VEGF (fator de crescimento endotelial vascular) e PIGF (fator de crescimento placentário), diminui SFlt-1 e sEng, promovendo a redução da inflamação e melhorando a reatividade vascular;
  • nas células endoteliais aumenta eNOS (sintetizador de oxido nítrico endotelial), diminui endotelina 1, aumenta VEGF, diminuiu PAI-1 (inibidor ativador de plasminogênio-1), diminui espécie reativa de oxigênio, contribuindo para melhora da função endotelial, diminuindo inflamação e melhorando a angiogênese.

A recomendação da Atualização da Diretriz Brasileira de dislipidemia e prevenção da Aterosclerose da SBC atual é que as mulheres dislipidêmicas evitem as vastatinas na idade fértil (classe II-A; C). Entretanto, há questionamentos sobre a proibição por teratogenicidade por falta de evidência robusta e trabalhos com desenhos conflitantes.

Recentemente, foi relatado que o FDA pretende revisar as recomendações sobre o uso de estatinas em mulheres em idade reprodutiva sem uso de métodos contraceptivos assim como em gestantes. O uso em gestantes poderia ser considerado em situações de alto risco como hipercolesterolemia familiar homozigótica e prevenção secundária de eventos cardiovasculares. Aguardamos o comunicado oficial.

Colaboração de Mônica Boehler Iglesias Azevedo Ferreira.

Avila WS, Alexandre ERG, Castro ML, Lucena AJG, Marques-Santo C, Freire CMV, et. al. Posicionamento da Sociedade Brasileira de Cardiologia para Gravidez e Planejamento Familiar na Mulher Portadora de Cardiopatia – 2020. Arq Bras Cardiol. 2020 Arq Bras Cardiol. 2020; 114(5):849-942.

Faludi AA, Izar MCO, Saraiva JFK, Chacra APM, Bianco HT, Afiune A Neto, et al. Atualização da Diretriz Brasileira de Dislipidemias e Prevenção da Aterosclerose – 2017. Arq Bras Cardiol. 2017;109(2 Suppl 1):1-76.

Devin D. Smith, MD; Maged M. Costantine, MD. Expert Review: The role of statins in the prevention of preeclampsia.  American Journal of Obstetrics & Gynecology, 2020.

https://www.medscape.com/viewarticle/955088. FDA to Revise Statin Pregnancy Contraindication – Medscape – Jul 20, 2021.

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