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Protocolo SPIKES: como comunicar más notícias para seu paciente?

Escrito por Eduardo Lapa

Esta publicação também está disponível em: Português

Nas aulas de medicina geralmente não se tem o treinamento ou direcionamento de como se comunicar com o paciente e seus familiares em situações de diagnósticos com mau prognóstico. Contudo, esses diagnósticos fazem parte do dia a dia do médico na maioria das especialidades. Como então fazer a comunicação de más notícias? Ao longo desse post, vamos ver como o protocolo SPIKES pode nos ajudar nessa missão. 

A comunicação é uma habilidade global, necessária em qualquer meio.  Algumas pessoas acham que a comunicação é um dom. Na verdade, essa é uma habilidade treinável e que pode ser melhorada através de técnicas específicas. 

Comunicar x Informar 

Antes de partir para formas de comunicar, é importante entender a diferença entre Comunicar e Informar.

  • Ao se comunicar com alguém, a conversa é de mão dupla, passar e receber.
  • Já informar é apenas emitir uma mensagem, sem a troca de receber e emitir. 

Então, como é feita a comunicação adequada? 

A comunicação adequada é feita quando você transmite uma mensagem e o receptor consegue compreender o conteúdo.  Existem alguns passos que são usados como base para auxiliar neste processo. 

Antes de começar a pensar sobre como comunicar, é importante entender que uma notícia ruim pode ter significados diferentes para diferentes pessoas. Isso depende de um fator importante, o chamado “background” da pessoa, ou o histórico de vida.

Uma notícia comunicada de forma inadequada pode causar grandes traumas e até mesmo fazer com que as pessoas se sintam desencorajadas a prosseguir com o tratamento.  É preciso ter empatia e saber lidar com os sinais verbais e não verbais que o receptor passa e saber como prosseguir. 

Quais os efeitos que essa comunicação pode causar?

Quando as informações são passadas aos pacientes ou familiares e existe o entendimento adequado de toda situação, ele poderá sanar todas as dúvidas referentes ao diagnóstico e ao tratamento.  Em casos em que isso não ocorre tão bem, alguns pacientes e seus familiares podem ficar com dúvidas, medos e inseguranças, até mesmo não dar credibilidade ao profissional, fazendo com que a adesão à tratamentos seja negada.  Ao passar informações claras e empáticas, o processo fica humanizado.  Ter empatia é entender o que é importante para o outro, entender o que ele compreende e se ele deseja saber mais, ir adiante. 

Protocolos e Estratégias

Profissionais de saúde podem sempre se especializar e procurar treinamentos para facilitar esse processo.  Vale lembrar que essa habilidade é mais do que uma técnica engessada, é uma forma de auxiliar, mas pode ser adequada a forma que o profissional achar que encaixa melhor.  As estratégias e protocolos são baseadas na ideia de Comunicação Não Violenta de Marshall Rosenberg, que apoia relações de parceria e cooperação na comunicação eficaz e empatia. 

O protocolo SPIKES ajuda a definir os passos a serem seguidos ao se comunicar uma má notícia:

S (Setting up the interview) – o primeiro passo do protocolo SPIKES é se preparar. A comunicação deve ser feita preferencialmente em um ambiente calmo e livre de ruídos. Peça para que o paciente ou familiares se sentem.  É preciso decidir quem vai estar presente. Em alguns casos é interessante que estejam presentes todos da equipe que poderão auxiliar no processo e não apenas o médico. Nesses casos, ficar atento para que haja mais membros da família do que da equipe de saúde. Isso faz com que o ambiente fique mais acolhedor para o paciente que verá uma quantidade maior de rostos familiares do que de profissionais que muitas vezes podem ser desconhecidos para quem está recebendo a notícia. 

P (Perception) – é onde o médico tenta compreender o quanto o paciente sabe e entende da situação. Pode-se perguntar: “O que o senhor sabe sobre a situação?”. Ou: “O que a senhora imagina que o exame mostrou?”

I (invitation) – aqui se deve saber se o paciente prefere receber todas as informações ou se ele prefere que as informações sejam repassadas para um determinado familiar. Alguns pacientes idosos podem dizer: “tudo sobre a minha situação o senhor pode falar para minha filha que ela resolve. O que ela achar importante ela me passa depois”. 

É sempre importante lembrar que todo paciente tem o direito de saber o que tem, mas também é direito dele não querer saber. Em alguns casos, familiares pedem para que o paciente não seja informado. Porém, cabe ao médico informar que se o paciente é lúcido e deseja saber, ele tem esse direito. Ou seja, caso o paciente deixe claro que não quer saber da notícia, o médico pode omitir aquela informação para ele e repassar apenas para o familiar. Já se o paciente pergunta de forma direta e clara se possui um determinado diagnóstico (ex: câncer), o médico não pode mentir sobre o diagnóstico. 

(Warning Shot) – esse passo não está necessariamente no protocolo, porém é uma chave utilizada para iniciar a comunicação da notícia. A tradução livre é “tiro de aviso”. Consiste em dar avisos do que está por vir. Exemplo: “Infelizmente não tenho boas notícias para dizer”. 

Além disso, é necessário lembrar que não se pode apenas falar sem parar. Às vezes o paciente precisa de tempo para assimilar e ainda, para fazer perguntas ou confirmar as informações. 

K (Knowledge) – as informações são passadas ao paciente, de forma clara e sem a utilização de palavras complicadas ou muito técnicas. O profissional precisa perceber até onde ele está sendo entendido. A forma com que essa passagem de informação é feita afeta a adesão ao tratamento e outros fatores. 

Para saber lidar com essa fase e com a seguinte do protocolo SPIKE, utiliza-se também da estratégia NURSE. 

Após passar a situação ao paciente ou familiar, ele entrará para a etapa E (Emotions). Essa é considerada a parte mais difícil. O médico precisa entender se deve prosseguir ou não com a comunicação. 

É neste momento que se utiliza a NURSE (Naming, Understanding, Respecting, Supporting, Exploring). O objetivo é abordar as emoções que o paciente terá. 

1- Nomear o que o paciente está sentindo. 

2- Compreender a situação e a emoção, validar aquilo que já foi dito, então perguntar: “o que você entende sobre tudo isso?”

3- Demonstrar respeito ao que a pessoa está sentindo, não necessariamente verbalizar, mas demonstrar esse respeito. 

4- Demonstrar apoio e conversar sobre estratégias de enfrentamento, quais podem ser os próximos passos.

5- Focar no que o receptor quer saber, se ele quer saber mais. Explorar o que fazer a seguir. 

S (Strategy and summary) – esse é o último passo do protocolo SPIKES. Pergunte ao seu paciente se ele está pronto para prosseguir a discussão. Perguntar o que ele entende até ali. Se ele estiver pronto, discutir estratégias e quais serão os próximos passos. 

*É importante o profissional se colocar à disposição para passar a notícia para a família, às vezes, marcar um outro encontro para que esse paciente não precise passar essa informação sozinho para os familiares* 

O protocolo SPIKES tem como objetivo auxiliar, mas vale lembrar que não é uma regra engessada, pode e deve ser adaptada às situações. 

Conclusão

O protocolo SPIKES nos ajuda a sistematizar a comunicação de más notícias para nosso paciente.

Para saber mais sobre o assunto, veja nosso podcast:

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Sobre o autor

Eduardo Lapa

Editor-chefe do site Cardiopapers
Especialista em Cardiologia e Ecocardiografia pela SBC

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