Coronariopatia

Qual a principal causa de infarto em jovens?

Ferdinand Saraiva
Escrito por Ferdinand Saraiva

Não existe uma definição universal de “jovem” para a doença cardiovascular, e diferentes estudos usam pontos de corte arbitrários, como 40, 45, 50 ou 55 anos. Nessa população “especial”, algumas considerações sobre o infarto agudo do miocárdio (IAM) precisam ser feitas. Vamos dar uma breve revisada no tema infarto em jovens.

Um dos estudos mais recentes sobre o tema é a coorte retrospectiva YOUNG-MI, com 1.475 pacientes abaixo de 45 anos com infarto agudo do miocárdio nos Estados Unidos. 80% desses jovens com IAM eram do sexo masculino e a grande maioria (83%) tinha pelo menos um fator de risco cardiovascular “clássico” (hipertensão, diabetes, obesidade, tabagismo, dislipidemia e história familiar para DAC), sendo dislipidemia o fator de risco mais comum (55%). A maior parte desses pacientes (52%) seria considerada como “baixo risco” para eventos: usando a Diretriz da AHA de Dislipidemia (2013), a estimativa de risco cardiovascular de 10 anos médio da coorte seria de 4.8%.

Um outro estudo, com 1.199 pacientes com infarto agudo do miocárdio na Nova Zelândia, dos quais 154 (12.8%) tinham menos de 50 anos, identificou pelo menos um fator de risco tradicional em praticamente 90% dos jovens infartados. Obesidade e tabagismo foram mais frequentes nos jovens, dos quais 36% seriam considerados como de “baixo risco”.

É necessário chamar a atenção para o desenvolvimento da aterosclerose, que se inicia muito cedo na vida. Um estudo com autopsia de 760 jovens norte-americanos entre 15 e 35 anos falecidos por causas externas (homicídio, suicídio, acidentes automobilísticos) identificou aterosclerose significativa na artéria descendente anterior, com placas vulneráveis a ruptura, em 20% dos homens e 8% das mulheres.

O CASS (Coronary Artery Surgery Study) é um registro mais antigo de pacientes com doença coronariana. Entre 8.839 pacientes com história de IAM do CASS, fez-se uma análise dos 294 homens com 35 anos ou menos e das 210 mulheres com 45 anos ou menos. Novamente, o tabagismo se destacou como fator de risco na história clínica. Mas queremos chamar a atenção para os dados de anatomia coronariana: a maioria dos pacientes jovens tinha doença aterosclerótica bem estabelecida, com obstrução significativa de pelo menos uma artéria em 78% dos homens e 66% das mulheres. Aterosclerose não-obstrutiva foi identificada em 6% dos homens e 13% das mulheres e coronárias angiograficamente normais em 16% dos homens e 21% das mulheres.

Esses dados são corroborados por um outro pequeno estudo italiano antigo, que levou para autopsia 150 pacientes menores de 35 anos consecutivos com morte súbita. 48 desses óbitos foram atribuíveis a doença coronariana, e 32 destes (66%) tinham causa aterosclerótica evidente. Dos 16 casos restantes, 12 pacientes tinham anomalias de coronárias.

DICA:

  • IAM em jovens: a doença aterosclerótica continua sendo o diagnóstico mais importante!

Referências:

Singh A, Collins BL, Gupta A et al. Cardiovascular Risk and Statin Eligibility of Young Adults After a Myocardial Infarction: Partners YOUNG-MI Registry. J Am Coll Cardiol 2107;40(11):955-961

Matsis K, Holley A, Al-Sinan A et al. Differing Clinical Characteristics Between Young and Older Patients with Myocardial Infarction. Heart, Lung and Circulation 2017;26(6):566-571.

McGill HC, McMahan A, Ziske AW et al. Association of Coronary Heart Disease Risk Factors with Microscopic Qualities of Coronary Atherosclerosis in Youth. Circulation 200; 102:374-379

Zimmerman FH, Cameron A, Fisher LD, Ng G. Myocardial Infarction in Young Adults: Angiographic Characterization, Risk Factors and Prognosis (Coronary Artery Surgery Study Registry). J Am Coll Cardiol 1995;26(3):654-61.

Corrado D, Thiene G, COcco P, Frescura C. Non-atherosclerotic coronary artery disease and sudden death in the Young. Br Heart J 1992;68(6):601-7

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Sobre o autor

Ferdinand Saraiva

Ferdinand Saraiva

Residência em Clínica Médica e Cardiologia pelo Hospital Universitário Onofre Lopes/UFRN.
Plantonista da UTI do Hospital Promater e do Pronto-Atendimento do Hospital Rio Grande.

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