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Quinolonas aumentam o risco de morte súbita?

Escrito por Luís Sette

Esta publicação também está disponível em: Português

Estudo publicado no JAMA em 20 de outubro de 2021 revelou associação entre o uso de quinolonas e o maior risco de morte súbita em pacientes em hemodiálise (HD) com infecção do trato respiratório (ITR) quando comparado aos pacientes que utilizaram antibióticos a base de amoxicilina.

Pesquisadores da Carolina do Norte avaliaram o registro de insuficiência renal do Medcare (dados de cerca de 265 mil americanos em hemodiálise) entres os anos de 2007-2016. Nesta coorte retrospectiva, foi evidenciado que os pacientes em HD que fizeram uso de quinolona (moxifloxacino ou levofloxacino) apresentaram risco de morte súbita quase 2 vezes maior nos primeiros 5 dias da prescrição destas medicações quando comparados aos que usaram amoxicilina ou amoxicilina com clavulanato ( HR: 1.95; IC: 1.57-2.41).

De fato, a morte súbita é a principal causa de óbito de pacientes em hemodiálise. O risco de morte súbita é cerca de 20 vezes maior do que o da população não dialítica e é sabido que as quinolonas são drogas causadoras de prolongamento do intervalo QT. Lembrando do nosso mnemônico CARDIOPAPERS:

Os autores deste estudo sugerem que a diminuição da prescrição das quinolonas em pacientes em hemodiálise pode diminuir o risco de morte súbita, mas reforçam o papel retrospectivo do estudo e de ser um estudo de associação gerador de hipótese. Há muitos vieses de confusão neste estudo e cerca de 20% dos pacientes em HD estavam em uso de outra medicação possivelmente causadora de arritmias ventriculares.

Os pesquisadores também consideram a monitorização dos pacientes com eletrocardiograma antes do início destas medicações, especialmente, se não for apropriado o uso de antibióticos a base de amoxicilina para tratamento da infecção respiratória.

Opinião pessoal:

Como a chance de evento foi quase duas vezes maior, por ser um evento grave e por se tratar de um método diagnóstico simples e disponível nos centros de diálise o Nefrologista deve  avaliar o intervalo QT nesta população de altíssimo risco de morte súbita antes de considerar o tratamento da ITR com quinolonas.

Aliás, deve realizar o ECG nos pacientes antes de iniciar qualquer medicamento que tenha o potencial de elevar o intervalo QT e acompanhar durante o tratamento (cerca de 20% dos pacientes deste estudo estavam em uso de medicamentos capazes de causar arritmia ventricular!)

Adicionalmente, não devemos “demonizar” as fluorquinolonas, uma vez que estes medicamentos são altamente eficazes no tratamento de pacientes com ITR.

Vale sempre o bom senso e a monitorização!

Quer ver uma revisão massa sobre intervalo QT? Checa o vídeo abaixo.

Referências: https://jamanetwork.com/journals/jamacardiology/article-abstract/2785156

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Sobre o autor

Luís Sette

Formado em Medicina pela UPE
Residência em Clínica Médica UNIFESP
Residência em Nefrologia pela USP
Título de Especialista em Nefrologia pela Sociedade Brasileira de Nefrologia
Mestre em Ciências da Saúde pela UFPE
Professor da Disciplina de Nefrologia da UFPE

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