Arritmia

Sulfato de Magnésio para Controle da Resposta Ventricular em Fibrilação Atrial – Funciona?

Escrito por Pedro Veronese

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Sulfato de Magnésio para Controle da Resposta Ventricular em Fibrilação Atrial: funciona?

Essa foi a pergunta que um estudo publicado em 2018 tentou responder. Pacientes > 18 anos, com fibrilação atrial (FA) e alta resposta ventricular > 120 bpm que deram entrada no serviço de emergência foram randomizados em três grupos; 153 pacientes receberam 9,0 g de sulfato de magnésio – MgSO4 (grupo alta dose); 148 pacientes receberam 4,5 g de MgSO4 (grupo baixa dose); 149 pacientes receberam solução salina (grupo placebo). Todos receberam fármacos antiarrítmicos (digoxina, diltiazem ou betabloqueadores – BB) em associação ao MgSO4. Os critérios de exclusão foram pressão sistólica < 90 mmHg, rebaixamento do nível de consciência, insuficiência renal, taquicardia com QRS largo, infarto agudo do miocárdio, insuficiência cardíaca classe funcional III – IV da NYHA, doença do nó sinusal ou contraindicação para MgSO4.

A infusão do MgSO4 foi realizada em 30 minutos após diluição em 100 mL de solução salina. O antiarrítmico mais utilizado foi digoxina, que variou de 44,5% a 50,7 % entre os 3 grupos, seguido do diltiazem, que variou de 29% a 33,3%, e por último BB, que variou de 20,3% a 22,2%.

O desfecho primário foi a redução da resposta ventricular da FA ≤ 90 bpm ou redução da resposta ventricular ≥ 20% em relação aos valores basais. O desfecho secundário foi o tempo necessário para a resposta terapêutica, a taxa de reversão para ritmo sinusal e os efeitos adverso nas primeiras 24h.

Em 4 h, a resposta terapêutica foi maior nos grupos que receberam MgSO4 comparados ao placebo (p ≤ 0,05), respectivamente: grupo alta dose 59,5% (57,1% – 67,3%), grupo baixa dose 64,2% (56,5% – 71,9%) e grupo placebo 43,6% (35,7% – 51,6%). Isso também foi observado em 24 h, respectivamente: 94,1% (90,4% – 97,8%), 97,9% (95,7% – 100%) e 83,3% (77,2% – 89,2%). Flush facial foi o principal efeito colateral da infusão de MgSO4.

A conclusão dos autores foi que a infusão IV do MgSO4 pareceu ter efeito sinérgico quando combinada com bloqueadores do nó AV resultando em melhor controle de frequência. As doses de 9,0 g e 4,5 g mostraram eficácia semelhante, porém a menor dose apresentou menos efeitos colaterais.

Comentário Cardiopapers:

Apesar de se tratar de um estudo randomizado, controlado e duplo-cego, não existem muitas evidências na literatura sobre o uso de magnésio com esse objetivo, talvez o que explique a sua baixa utilização na prática clínica no Brasil. Outra questão relevante, atualmente, é que a digoxina não é droga classe I para controle de frequência nos diversos Guidelines de FA, mas foi o antiarrítmico mais utilizado neste estudo. É importante destacar que a randomização neste estudo ocorreu de 2009 a 2014.

Na prática, o sulfato de magnésio constitui medicação segura e com poucos efeitos colaterais. Desta forma, pode ser utilizado como adjuvante neste cenário sem grandes ressalvas.

Referência

ACADEMIC EMERGENCY MEDICINE 2019;26:184–191. doi: 10.1111/acem.13522

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Sobre o autor

Pedro Veronese

Médico Especialista em Clínica Médica pela Santa Casa de Misericórdia de São Paulo.
Médico Especialista em Cardiologia pela Sociedade Brasileira de Cardiologia - SBC.
Médico Especialista em Arritmia Clínica e Eletrofisiologia pela Sociedade Brasileira de Arritmias Cardíacas - SOBRAC.
Médico do Centro de Arritmias Cardíacas do Hospital Alemão Oswaldo Cruz.
Doutor em Cardiologia pelo InCor - FMUSP.
Preceptor da Residência de Clínica Médica do Hospital Estadual de Sapopemba e Hospital Estadual Vila Alpina.
Médico Chefe de Plantão do Pronto Socorro Central da Santa Casa de São Paulo.
Professor da Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo.
Professor da Faculdade de Medicina UNINOVE.

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