Insuficiência Cardíaca Métodos complementares

Você já conhece o strain atrial? Sabe para que ele serve?

Escrito por Giordano Bruno

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No ecocardiograma tradicional, costumamos avaliar as medidas de volume e de tamanho linear do átrio esquerdo. Principalmente o primeiro já foi relacionado com aumento do risco de certos eventos cardiovasculares. Alguns estudos vêm mostrando que antes de se dilatar, o átrio esquerdo pode apresentar alterações funcionais. Estas podem ser medidas, por exemplo, pelo método de strain atrial.

Assim como no ventrículo esquerdo, o strain atrial esquerdo se mostra como mais promissor em relação a fração de ejeção, principalmente considerando que fatores relacionados a pré e pós-carga poderiam exercer grande influência na fração de ejeção atrial e, além disso, a delimitação da cavidade atrial nessas 2 fases pode sofrer grande influência do examinador (técnica subjetiva).

O strain atrial pode ser dividido em 3 fases de avaliação distintas:

  1. o strain reservatório (relacionado a capacidade do átrio de receber o sangue proveniente das veias pulmonares);
  2. o strain condutor (relacionado a capacidade de transmitir no início da diástole o sangue para o ventrículo esquerdo) e…
  3. o strain de contração (relacionada a capacidade de contração atrial)

Alguns estudos anteriores mostraram superioridade do strain em relação aos parâmetros habituais do AE em predizer uma variedade de eventos cardiovasculares (artigo de revisão citado no final desse post), mas um estudo recente publicado no Journal of American College of Cardiology trouxe mais uma importante evidência sobre uma capacidade mais precoce de sinalizar o risco de insuficiência cardíaca (IC) ou mortalidade.

Tratou-se de estudo com 4901 pacientes acima de 65 anos sem IC inicialmente, e seguidos por cerca de 5,5 anos (5 visitas). Foi usado como referencial um subgrupo de baixo risco (sem qualquer doença cardiovascular ou fator de risco). Após análise multivariada, que incluiu variáveis como BNP, os parâmetros de função atrial esquerda medidos pela fração de ejeção, volume atrial mínimo e as 3 fases de strain atrial tiveram relação significativa com risco de IC ou morte, o que não aconteceu com o volume atrial (máximo). Das 3 fases do strain, o strain de contração foi o único que demonstrou uma relação linear com o risco de IC ou morte. Tanto ICFER quanto ICFEP tiveram comportamento semelhante relacionadas a essas variáveis atriais (exceto também o volume máximo do AE).

Implicações Práticas
Existe um tendência geral de valorizar muito o volume atrial esquerdo como melhor parâmetro para indicar o estresse pressórico a que é submetido o átrio esquerdo em diversas condições. Esse estudo levanta a possibilidade de utilizar parâmetros de função atrial, particularmente o strain, por melhor representar a ultra-estrutura e função atrial e sofrer menor variabilidade interobservador, abrindo assim perspectivas de uso prático em diversas condições como disfunção diastólica hemodinâmica, risco potencial de fibrilação atrial e insuficiência cardíaca de maneira geral.

Os valores normais do strain atrial são:
Strain Reservatório de AE > 39,4%
Strain condutor do AE > 23%
Strain de contração do AE > 17,4%

Referências

Inciardi, RM. Association of Left Atrial Structure and Function With Heart Failure in Older Adults. JACC VOL. 79, NO. 16,  2022:1549 – 1561.

Medeiros MA. Função Atrial Esquerda pelo Método de Speckle Tracking: Além da Avaliação Volumétrica. Arq Bras Cardiol: Imagem cardiovasc. 2019;32(1):34-42

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Sobre o autor

Giordano Bruno

Médico Cardiologista e Ecocardiografista formado pela UFPE
Supervisor da residência em cardiologia do Hospital Agamenon Magalhães - SES/PE
Coordenador dos protocolos da cardiologia do Realcor / Real Hospital Português/PE

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