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Trombofilias adquiridas aumentam o risco de infarto?

Ferdinand Saraiva
Escrito por Ferdinand Saraiva

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Ao contrário das trombofilias hereditárias, existe uma associação entre trombofilias adquiridas e eventos arteriais, como o infarto agudo do miocárdio (IAM) e o acidente vascular encefálico (AVE).

Síndrome do Anticorpo Antifosfolipídeo (SAAF) é uma condição autoimune protrombótica muitas vezes presente no jovem, principalmente no sexo feminino: costuma surgir por volta da quarta década de vida e está presente em até 40% das pacientes com lúpus eritematoso sistêmico. Embora a apresentação mais comum seja trombose venosa (39% dos pacientes), até 20% dos pacientes vão apresentar AVE e 6%, IAM. A American Heart Association recomenda o uso de terapia antiplaquetária para pacientes com pesquisa de anticorpos antifosfolipídeo positiva, mas sem critérios clínicos para SAAF. Na profilaxia secundária de IAM e AVE, não existe consenso entre os especialistas, mas alguns consideram adicionar anticoagulação à terapia antiplaquetária habitual. O estudo WARSS/APASS comparou varfarina vs AAS para prevenção secundária de AVE em pacientes com anticorpos anticardiolipina positivos e não encontrou diferença para eventos tromboembólicos recorrentes, mas não temos estudos semelhantes para prevenção secundária de IAM. Lembramos que as sorologias para anticorpos antifosfolipídeos devem ser repetidas após 12 semanas: diversas condições, como medicamentos e infecções, podem levar a títulos positivos transitórios.

Outras trombofilias adquiridas associadas ao IAM são trombocitopenia induzida por heparina (HIT), síndromes mieloproliferativas com mutação do JAK-2 (policitemia vera e trombocitemia essencial), hemoglobinúria paroxística noturna (HPN) e as microangiopatias trombóticas (MAT) púrpura trombocitopênica trombótica (PTT) e síndrome hemolítico urêmica atípica (SHUa). Estas condições são raras, mas têm particular relevância, uma vez que o diagnóstico oportuno é capaz de prevenir complicações próprias para além da doença cardiovascular (por exemplo, transformação para leucemia aguda nas síndromes mieloproliferativas e insuficiência renal na SHUa).

Dica:

  • Em infarto do miocárdio sem doença aterosclerótica e em que nenhuma etiologia é identificada, a pesquisa de anticorpos antifosfolipídeos pode ser considerada. Se o cenário clínico e laboratorial for sugestivo, outras trombofilias adquiridas podem ser consideradas (HIT, JAK-2, HPN, MAT)

Referências:

Boekholdt SM, Kramer MH. Arterial thrombosis and the role of thrombophilia. Semin Thromb Hemost 2007;33(6):588-96

Shen YM, Nagalla S. Hypercoagulable Workup in Thrombotic Cardiovascular Diseases. Circulation 2018; 138:229-231;

Corban MT, Duarte-Garcia A, McBane RD et al. Antiphospholid Syndrome: Role of Vascular Endothelial Cells and Implications for Risk Stratification and Targeted Therapeutics. JACC 2017; 69(18):2317-30.

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Sobre o autor

Ferdinand Saraiva

Ferdinand Saraiva

Residência em Clínica Médica e Cardiologia pelo Hospital Universitário Onofre Lopes/UFRN.
Plantonista da UTI do Hospital Promater e do Pronto-Atendimento do Hospital Rio Grande.

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