Coronariopatia Prevenção

Maratona aumenta o risco de eventos cardiovasculares?

Escrito por Giordano Bruno

Esta publicação também está disponível em: Português

Sabemos que sedentarismo é um importante fator de risco cardiovascular e que a prática de atividade física reduz o risco de eventos ateroscleróticos. A maioria das diretrizes recomenda que se faça ao menos 150 minutos de atividade física moderada por semana. Mas, atividade em demasia poderia ser perigosa ao sistema cardiovascular? Exercícios extenuantes como a realização de uma maratona poderiam aumentar o risco de eventos cardiovasculares? Realizada cada vez mais por pessoas iniciantes, muitas vezes sem a preparação e os cuidados adequados, esse esporte exige muito do sistema cardiovascular e comprovadamente modifica esse mesmo sistema e o que poderia ser uma benefício potencialmente representa um risco.

Neste post vamos fazer uma breve revisão sobre o que você precisa saber sobre maratona e risco de eventos cardiovasculares.

Quais são as modificações do sistema cardiovascular em maratonistas ?

Basicamente temos o aumento da pressão arterial sistólica, massa do ventrículo esquerdo (hipertrofia), com aumento da cavidade, sem modificação da função cardíaca. Alguns atletas podem exibir hipertrofia com aumento da espessura além de aumento atrial esquerdo e do ventrículo direito. Para uma revisão top sobre coração de atleta, acesse este post.

O ECG demonstra alterações em 15% (3,3% com padrão típico de HVE). Sabe quais são as alterações eletrocardiográficas consideradas fisiológicas em atletas? Acesse este post nosso.

Ressonância mostrou fibrose miocárdica em 12% em um estudo, mas em outro estudo chegou a 21% (corredores de alta performance), sendo 6 vezes maior que o grupo controle não atleta com extensão da fibrose proporcional a intensidade do treino.

Existe também um aumento a susceptibilidade a arritmias atriais e ventriculares.

Assim como outros grupos de esportistas, corredores de maratona com volume de pelo menos 1 maratona/ano em 25 anos demonstraram mais alto nível de calcificação coronária e volume de placas coronarianas (274mm³ x 169mm³ em sedentários) e é nitidamente proporcional ao nível de massa do ventrículo esquerdo. Falamos sobre o achado de escore cálcio aumentado em atletas neste post.

Atletas avaliados imediatamente após a prova demonstram piora do strain do VE, dos parâmetros da função diastólica e do controle autonômico (simpático/parassimpático) com flutuações da pressão arterial. Além disso há aumento da agregabilidade plaquetária, ação de metaloproteinases, TNF e IL-6. Somando-se a essas alterações devemos considerar a presença de desidratação (aumento da viscosidade sanguínea), disfunção renal transitória, miólise e distúrbios eletrolíticos. Níveis de marcadores cardíacos (troponina, CK-MB e BNP) encontram-se nitidamente elevados após uma maratona.

 

Ocorrência de eventos cardiovasculares e morte súbita durante maratona

Esses eventos são predominantes ateroscleróticos em pessoas acima de 40 anos (prevalência de doença coronariana de 20% após 40 anos), e acontecem por causas mais raras antes disso (MCPH, anomalia coronária, miocardite p. exemplo).

A incidência de morte súbita durante as provas em vários estudos varia entre 0,2 a 1,9 a cada 100.000 corredores, sendo muito mais prevalente em homens, com idade média variando entre 37 e 48 anos. Estudo sueco mostrou também idade média de 41 anos com proporção de 22 homens para 6 mulheres. Em estudo americano com mais de 10 milhões de corredores, o risco de parada cardíaca durante a maratona foi 4 vezes maior que na meia-maratona (21km), sendo 6 vezes maior em homens.

Uma extensa revisão da década de 80 mostrou que o perfil dos que faleceram por doença coronária demonstrava um volume de treino médio anual de 4024km, com média de 13 maratonas realizadas e em 59% dos casos tendo realizado pelo menos uma ultramaratona (90km). Nesse mesmo estudo, 71% tiveram sintomas suspeitos prévios e os fatores mais associados foram dislipidemia (77%), história familiar (64%), tabagismo atual ou prévio (41%) e hipertensão (32%)

Risco cardiovascular e mortalidade geral em maratonistas (não relacionada a prova)

O risco de mortalidade geral é reduzido em torno de 19% em corredores, com uma curva em “U” relacionada a distância, velocidade e frequência de treino. Ou seja, a partir de certo ponto, intensificar o treino pode reduzir o benefício. O risco de morte reduziu progressivamente com o aumento da velocidade até uma velocidade média de 11,2km/h (PACE=5’19’’) tendendo a aumentar com a velocidade de 12,9km/h (PACE=4’39’’). O mesmo aconteceu quando a distância semanal foi maior que 33km/semana ou quando se treina acima de 5 vezes por semana.  Ao que tudo indica o excesso de treino com “Overtraining” pode representar papel importante em marcadores inflamatórios e risco nesses indivíduos.

Quais seriam então as orientações para evitar essas consequências tão danosas

  • Evitar treinos diários exaustivos com mais de 1 hora de duração contínua. Um objetivo ideal não deveria ter mais que 7 horas semanais de exercícios de ALTA PEFORMANCE.
  • Quando realizar exercícios aeróbicos extenuantes, respeite períodos intermitentes de repouso, ou experimente poucos minutos com menor velocidade e até caminhadas no meio da corrida (isso permite normalização do débito cardíaco, pressão arterial, tamanho das câmaras cardíacas antes de recomeçar)
  • Incorpore treinos alternativos a sua rotina semanal, como treino de força e/ou resistência. Essa estratégia multi-treinos (“cross-training”) permite reduzir a carga de trabalho cardíaco comparada a treinos frequentes de longa distância
  • Evitar ser um COMPETIDOR CRÔNICO de muito-longas distâncias como maratonas, ultra-maratonas, Iron-Man, principalmente após a idade de 45/50 anos. Após os 50 anos, esses indivíduos devem reduzir a intensidade e duração dos exercícios de muito-alta performance e aumentar o período de recuperação
  • Apesar de controverso, o rastreio de doença coronariana especialmente quando existem fatores de risco pode ser considerado para redução do risco residual mesmo em indivíduos atletas. A melhor estratégia (estudo anatômico versus funcional) ainda não está definida.

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Sobre o autor

Giordano Bruno

Médico Cardiologista e Ecocardiografista formado pela UFPE
Supervisor da residência em cardiologia do Hospital Agamenon Magalhães - SES/PE
Coordenador dos protocolos da cardiologia do Realcor / Real Hospital Português/PE

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