Insuficiência Cardíaca

PARADIGM-HF: uma droga melhor que o IECA para tratamento da IC sistólica?

Há cerca de 25 anos, com os estudos CONSENSUS e SOLVD, foram demonstrados os benefícios do Enalapril no tratamento da insuficiência cardíaca sistólica. Desde então, vários estudos tentaram encontrar alguma droga que fosse superior à essa classe, sem sucesso. Os BRAs foram reservados para aqueles intolerantes ao IECA. Betabloqueadores e antagonistas de receptor mineralocorticóide mostraram benefícios quando adicionados aos IECA.

Agora uma nova medicação foi testada. Foi apresentado no congresso europeu de cardiologia o estudo PARADIGM-HF, que comparou uma nova droga inibidora do receptor de angiotensina e neprilisina LCZ696 (Novartis) com enalapril para pacientes com insuficiência cardíaca com disfunção sistólica. Quimicamente, essa nova droga consiste no bloqueador de receptor de angiotensina valsartan associado ao inibidor de neprilisina sacubitril.

Foi um estudo de fase 3, randomizado duplo cego com 8442 pacientes com IC CF II a IV e FE < ou = 40% (mudado posteriormente para < ou = 35%). Eram pacientes estáveis, avaliados ambulatorialmente, e todos apresentavam elevação do BNP. Comparou o uso de LCZ696 200mg 2xd vs Enalapril 10mg 2xd, adicionado ao tratamento padrão.

O desfecho primário foi um composto de morte cardiovascular ou hospitalização por IC. O estudo foi interrompido precocemente após um tempo de seguimento médio de 27 meses devido ao benefício da nova droga LCZ696. O desfecho primário ocorreu em 21,8% no grupo LCZ696 vs 26,5% no grupo enalapril (HR 0,80; p < 0,001). Houve uma redução de 16% em mortalidade por qualquer causa (17% vs 19,8%; p < 0,001) e 20% de redução de morte cardiovascular (13,3% vs 16%; p < 0,001). Houve uma redução também de 21% de hospitalização por IC, além de melhora dos sintomas.

Com relação aos efeitos colaterais, pacientes que utilizaram a nova droga LCZ696 apresentaram mais hipotensão e angioedema não grave, e menos disfunção renal, hipercalemia e tosse que o grupo que utilizou enalapril.

Esses resultados sugerem que a nova droga LCZ696 talvez tenha vencido essa batalha (é estatisticamente superior ao enalapril em redução de mortalidade e hospitalização por IC, no perfil de pacientes estudados).

Devemos nos atentar a alguns detalhes. Cerca de 1% dos pacientes eram de classe funcional IV, então não é possível afirmar uma diferença clara nesse sub-grupo. Além disso, na população negra (428 pacientes), não houve diferença entre as drogas.

Referência: McMurray JJV, Packer M, Desai AS, et al. Angiotensin-Neprilysin Inhibition versus Enalapril in Heart Failure. N Eng J Med published on line on August 30, 2014. DOI: 10.1056/NEJMoa1409077.

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Sobre o autor

Fernando Figuinha

Fernando Figuinha

Especialista em Cardiologia pelo InCor/ FMUSP
Médico cardiologista do Hospital Miguel Soeiro - Unimed Sorocaba.
Presidente - SOCESP Regional Sorocaba.

3 comentários

  • Tudo bem?
    Procurei no estudo e no protocolo o motivo da mudançã do corte de FE de <40% para <35% no meio do estudo, mas não encontrei a justificativa. Você saberia dizer qual foi o raciocínio, Figuinha?

    • Estêvão, também não achei em nenhum lugar explicando o motivo. Pensando no que poderia justificar isso, o resultado do estudo mostrou os 961 pacientes que tinham entre 35% e 40% de FE não tiveram diferenças em desfechos com o novo tratamento…uma análise parcial dos resultados poderia sugerir isso e justificar a mudança (não sei se eles conseguiriam acesso à essa análise parcial…mas tudo é possível). Uma outra possivel razão é que eles sempre utilizam o estudo solvd-treatment para comparação – para justificar o uso do enalapril na dose pela metade (que foi a dose média do solvd) etc. No solvd, foram incluidos pacientes com FE < 35%.

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