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Você costuma “pular” o café da manhã? O que isso tem a ver com a sua saúde?

Thiago Midlej
Escrito por Thiago Midlej

Várias são as condições associadas com o desenvolvimento de doença cardiovascular, como HAS, diabetes, obesidade e dislipidemia. Entre os fatores relacionados ao estilo de vida, a dieta é sem dúvida, o mais importante para estratégias de prevenção de doença cardiovascular. Padrões alimentares dependem de fatores sociais, culturais, psicológicos e comportamentais. Alguns estudos relacionaram hábito de omitir o café da manhã com aumento da prevalência de obesidade, diabetes e dislipidemia.

Recentemente foi publicado no JACC, um trabalho muito discutido entre médicos e nutricionistas intitulado: a importância do café da manhã na doença aterosclerótica.

O objetivo do estudo foi caracterizar a associação entre diferentes padrões de café da manhã e fatores de risco cardiovascular, particularmente, se o hábito de omitir o café da manhã está associado a aterosclerose subclínica, em pacientes sem história de DCV.

No total, foram avaliados 4052 pacientes com idades entre 40 e 54 anos, sem doença cardiovascular ou renal conhecida e IMC < 40Kg/m2. De acordo com o percentual de consumo energético durante o café da manhã em relação ao total do dia, os pacientes foram divididos em 3 grupos:

1) < 5% do consumo energético total diário no café da manhã (aproximadamente < 123 Kcal), chamados “puladores” ou omissores do café da manhã (2,9% dos participantes).

2)  5% a 20% do consumo energético total diário no café da manhã, considerados como baixo consumo no café da manhã (69,4% do total de participantes).

3) > 20 % do consumo energético total diário no café da manhã, chamados de alto consumo energético no café da manhã (27,7% dos participantes).

Comparados com os demais grupos, aqueles que omitiam o café da manhã eram na maioria homens, tabagistas, com história de realização de dieta para perda de peso no último ano e elevado consumo energético no almoço. Além disso, tinham maior consumo total de calorias e proteínas (principalmente de origem animal), apresentavam dieta rica em colesterol e pobre em fibras, com tendência a maior consumo de álcool, bebidas açucaradas e carnes vermelhas. Esse grupo, em média, não demorava mais do que 5 minutos no café da manhã.

Ao final do estudo, os omissores do café da manhã apresentaram mais aterosclerose subclínica com predomínio de placas em aorta abdominal, carótida e ileofemural, com chance aumentada em 1,55 vezes para aterosclerose não coronária e, 2,57 vezes para aterosclerose generalizada, independentemente da presença de fatores de risco convencionais para DCV.

Os autores concluem que omitir o café da manhã pode servir como um marcador de alimentação e estilo de vida não saudável e está associado com presença de aterosclerose generalizada, não coronária, independentemente de fatores de risco cardiovasculares em indivíduos assintomáticos, evidenciando a importância de uma dieta saudável incluindo o café da manhã com principal refeição do dia.

Opiniões: algumas considerações devem ser feitas.

A primeira é que existem vários critérios para o que consideramos café da manhã. Nesse trabalho foi adotado um critério específico, porém, outros estudos apresentam definições diferentes, com interpretações diferentes e resultados discrepantes.

Outro detalhe, o estudo é um corte transversal, sendo incapaz de realizar uma avaliação temporal.  No grupo dos omissores do café da manhã haviam mais pacientes com sobrepeso e obesos, alguns realizando dietas para perda de peso, o que pode ter contribuído nos resultados. Talvez, o hábito de omitir o café da manhã represente apenas um dos maus hábitos alimentares do indivíduo, não sendo diretamente o fator mais importante, mas sim, o que esse indivíduo consome em geral.

Outro fator importante é que o número de pacientes avaliados que omitiam o café da manhã era baixo e o que se consumia era relatado por questionário de frequência, dificultando interpretações maiores. Apesar disso, trata-se de um estudo interessante, evidenciando que determinados hábitos alimentares podem ser considerados fatores de riscos cardiovascular.

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Sobre o autor

Thiago Midlej

Thiago Midlej

Especialista em Cardiologia pela Sociedade Brasileira de Cardiologia​ e pelo Instituto do Coração da Faculdade de Medicina de São Paulo - I​NCOR​​.
Pós graduando da Unidade de Hipertensão do​​ I​NCOR​
Médico plantonista da Unidade Clínica de Emergência do INCOR
​​Cardiologista do Hospital Alemão Oswaldo Cruz

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