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O novo Apple Watch virou um holter?

Pedro Veronese
Escrito por Pedro Veronese

Recentemente, a Apple® anunciou dois novos recursos do seu famoso relógio de pulso. O primeiro deles é capaz de detectar fibrilação atrial (FA) e o segundo quedas.

Por meio de sensores instalados na região posterior do relógio, sinais elétricos são capturados e transformados em uma única derivação eletrocardiográfica (algo próximo de DI). Após a aquisição dos dados, o dispositivo lauda esse ECG em ritmo sinusal, se não houver sinais de irregularidade, ou em FA, se houver a presença de irregularidades. Todo esse processo, que demora cerca de 30 segundos, pode ser registrado em um arquivo de PDF e enviado diretamente ao médico do paciente.

O segundo dispositivo, por meio de um acelerômetro e um giroscópio, é capaz de detectar quedas. Se o indivíduo após a queda ficar imóvel por 60 segundos ou mais, o relógio automaticamente aciona os serviços de emergência e familiares previamente cadastrados.

Esses dois aplicativos são bons exemplos desta nova relação entre o indivíduo e a sua saúde. Em tempo real, o usuário do Apple Watch pode correlacionar os seus sintomas com arritmias cardíacas e produzir documentação que poderá ser levada ao seu médico em uma consulta futura, além de aumentar a sua segurança em caso de quedas.  

Comentários do Cardiopapers:

Posto todos esses aspectos acima, dois pontos são importantes de serem ressaltados:

1.    Qual a acurácia desses softwares e algoritmos em detectar, de forma correta, uma FA? Acredito que a confiança nestes dispositivos precise ser construída ao longo do tempo. Lembrar que os próprios laudos eletrônicos de aparelhos convencionais de ECG com 12 derivações possuem limitações em diagnosticar FA como já vimos neste post. Somente lembrando alguns pontos do texto:

  • as máquinas de ECG parecem ser muito acuradas em acertar quando o ritmo é sinusal (VPP > 95%) mas quando há alguma arritmia, este valor cai consideravelmente (VPP 53,5%). Isso é particularmente frequente quando as ondas Ps tem pequena amplitude, morfologia variável ou quando estão mascaradas na onda T, por exemplo.
  • Quando vamos avaliar fibrilação atrial (FA), as máquinas podem dar o diagnóstico falso-positivo (ou seja, dizer que há FA quando na verdade não existe) em até 19% dos casos.
  • Lembrando: isso é em relação a máquinas tradicionais de ECG, com 12 derivações. Imagine um dispositivo que possui apenas uma derivação.

O fato do relógio documentar e produzir um arquivo em PDF, que será posteriormente interpretado por um médico, minimiza este problema. 

2.    Seguramente haverá um maior diagnóstico de FA de curta duração em pacientes, muitas vezes, de baixo risco. O que faremos com essa informação? Indivíduos portadores de marca-passos cardíacos têm, frequentemente, documentado episódios assintomáticos de FA de curta duração. O significado clínico destes achados e a partir de quantos minutos de FA o paciente começa a apresentar risco de fenômenos tromboembólicos, ainda estão em discussão na literatura.

Referências:

1.     The Emerging Role of Wearable Technologies in Detection of Arrhythmia. Can J Cardiol. 2018 Aug;34(8):1083-1087. 

2.     New Apple Apps: Overdiagnosis, Useful Addition, or Both – Medscape – Sep 14, 2018.

3.     Subclinical device-detected atrial fibrillation and stroke risk: a systematic review and meta-analysis. Eur Heart J. 2018 Apr 21;39(16):1407-1415.

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Sobre o autor

Pedro Veronese

Pedro Veronese

Médico Especialista em Çlínica Médica pela Santa Casa de Misericórdia de São Paulo.
Médico Especialista em Cardiologia pela Sociedade Brasileira de Cardiologia - SBC.
Médico Especialista em Arritmia Clínica e Eletrofisiologia pela Sociedade Brasileira de Arritmias Cardíacas - SOBRAC.
Médico do Centro de Arritmias Cardíacas do Hospital Alemão Oswaldo Cruz.
Doutor em Cardiologia pelo InCor - FMUSP.
Preceptor da Residência de Clínica Médica do Hospital Estadual de Sapopemba e Hospital Estadual Vila Alpina.
Médico Chefe de Plantão do Pronto Socorro Central da Santa Casa de São Paulo.
Professor da Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo.
Professor da Faculdade de Medicina UNINOVE.

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