Hipertensão arterial sistêmica Manchetes da Semana Miscelânia Prevenção

Você leu um dos artigos mais importantes em HAS dos últimos meses?

Thiago Midlej
Escrito por Thiago Midlej

Um artigo recentemente publicado sobre hipertensão arterial passou batido por muita gente, apesar de trazer conceitos bem interessantes. Trata-se de um artigo publicado no NEJM em abril deste ano em que o objetivo foi avaliar um programa de controle pressórico em homens negros dos Estados Unidos, em que a promoção da saúde era realizada em barbearias, com medicações dadas pelo farmacêutico. A ideia era avaliar a eficácia desse programa em um grupo randomizado.
No total, foram avaliados 319 pacientes com PAS igual ou acima de 140mmHg, divididos em dois grupos. Um grupo de intervenção, em que os pacientes tinham encontros com farmacêuticos nas barbearias e recebiam anti- hipertensivos, e outro grupo, controle, em que os pacientes eram incentivados pelo barbeiro à mudança de estilo de vida e a comparecer a consulta médica. Os barbeiros do grupo intervenção foram treinados para incentivar o acompanhamento com o farmacêutico e para medir pressão arterial. Os farmacêuticos por sua vez, eram responsáveis por prescrever os anti-hipertensivos, aferir a PA, incentivar mudança no estilo de vida e monitorar eletrólitos plasmáticos.
A queda de PA foi, em 6 meses, 21,6 x 14,9 mmHg de sistólica e diastólica, respectivamente, no grupo intervenção versus grupo controle. Não houve eventos adversos significativos.
Em conclusão, o regime de medicação realizada em barbearia, por farmacêutico especializado e treinado, quando comparado com o tratamento padrão de saúde pública, resultou em uma queda expressiva da PA em homens negros hipertensos, clientes daquelas barbearias.
Até aí tudo bem, nada demais, Mais um trial que evidencia o poder da aderência no tratamento da HAS. Mas vamos fazer uma análise mais profunda:
– As barbearias americanas, onde foram realizadas as aferições, são locais tradicionais, frequentadas por um grupo de clientes “fiéis” em média 2 vezes por semana. Isso mostra que, o contato frequente com o fator estimulante, aqui no caso o barbeiro, pode tornar o estímulo um hábito. Imagine 2 vez por semana você receber incentivo para a prática de atividade física, ou para melhorar alimentação, para saber se vocês está usando corretamente as medicações, ou mesmo, para saber como você está.
– Outro ponto é que as medicações foram prescritas por farmacêuticos especializados e treinados. Isso pode ter um impacto grande porque pode ter diminuído consideravelmente o componente do jaleco branco. Outro fator que pode ter contribuído é que a adesão pode ter sido maior já que a proximidade com esse profissional era maior, assim como o número de contato.
– A queda de PA em 20 x 14 mmHg é expressiva. Para se ter dimensão, a denervação de artérias renais, em diverso estudos, não se chegou a uma queda desse porte. Observe os custos então. Quanto se gasta para realizar um estudo em denervação? E quanto se gasta para se criar uma droga nova? O alisquireno, o último grande lançamento anti-hipertensivo, teve um custo altíssimo e não mostrou redução significativa da PA. Por outro lado, esse trabalho mostra grande redução da PA e consequentemente, redução do risco cardiovascular, com custo muito mais baixo, envolvendo um processo de fidelização, educação e confiança.

A dificuldade para agendar consulta com médico, seja no público ou privado, não é desprezível e no mundo real, consultas duas vezes por semana é inimaginável.  A multidisciplinaridade é uma grande saída para melhorarmos a adesão.

Opinião do editor (Eduardo Lapa)

A tendência é que cada vez mais a assistência em saúde seja modificada ao longo dos próximos anos. Com o advento de recursos como os wearables (dispositivos eletrônicos que os pacientes usam como, por exemplo, o Apple Watch) cada vez mais o diagnóstico ficará menos centrado no médico. Este passará cada vez mais a ser um consultor e menos um diagnosticador como é na atualidade. Em paralelo a isto vemos que a aderência é o ponto chave do tratamento da maioria das doenças crônicas como hipertensão arterial e que estratégias que aumentem a aderência são cruciais para o sucesso do tratamento Já falamos deste assunto neste post sobre FA, por exemplo. Boa parte das estratégias que são eficazes em aumentar a aderência dos pacientes terminam não envolvendo diretamente o médico. O estudo do Barbershop discutido acima é um ótimo exemplo disto.

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Sobre o autor

Thiago Midlej

Thiago Midlej

Especialista em Cardiologia pela Sociedade Brasileira de Cardiologia​ e pelo Instituto do Coração da Faculdade de Medicina de São Paulo - I​NCOR​​.
Pós graduando da Unidade de Hipertensão do​​ I​NCOR​
Médico plantonista da Unidade Clínica de Emergência do INCOR
​​Cardiologista do Hospital Alemão Oswaldo Cruz

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