Emergências Hipertensão arterial sistêmica

Posso usar iECA ou BRA em pacientes com COVID-19?

Remo Holanda
Escrito por Remo Holanda

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Os inibidores da enzima conversora de angiotensina (IECA) e os bloqueadores do receptor de angiotensina 2 (BRA) estão entre os medicamentos mais utilizados na cardiologia, sendo indicados para tratamento de hipertensão, insuficiência cardíaca, nefropatia diabética e como terapia adjuvante após infarto do miocárdio. Além disso, em alguns subgrupos, como pacientes com fração de ejeção reduzida, o uso de IECA ou BRA comprovadamente leva à redução de mortalidade. Entretanto, com a pandemia do novo coronavírus (o SARS-CoV2), preocupações recentes têm surgido a respeito da segurança dessa classe de medicamentos em pacientes infectados pelo vírus. Isso porque o vírus utiliza o receptor ACE-2 (angiotensin converting enzyme 2) para entrar na célula humana. Como o uso de IECA/BRA aumenta a expressão desse receptor, existiria o risco teórico do uso de o uso de IECA/BRA agravar a infecção ou aumentar o risco de complicações graves.

Em um estudo recentemente publicado no periódico JAMA Cardiology, Li e cols. trazem novos esclarecimentos a respeito deste tópico. Analisando retrospectivamente banco de dados da província de Wuhan, na China, os investigadores avaliaram a potencial associação entre uso de IECA/BRA e mortalidade em pacientes hospitalizados com COVID-19. De 1178 pacientes analisados, 362 tinham histórico de hipertensão, dos quais 115 (31,8%) estavam em uso de IECA/BRA. A prevalência do uso de IECA/BRA não foi diferente entre os hipertensos não sobreviventes quando comparados aos hipertensos sobreviventes (27,3% versus 33,0 %; p = 0,34). Apesar de limitações consideráveis, como a falta de análises ajustadas (pois se trata de um estudo não randomizado), a natureza retrospectiva e o fato de menos de um terço dos hipertensos estarem em uso de IECA/BRA (muito menor do que o esperado, visto que esta é a uma das classes de medicamentos mais utilizadas no mundo para tratamento de hipertensão), o estudo traz implicações importantes para a prática clínica. Apesar do risco teórico, os dados apresentados sugerem que não existe evidência para recomendar a suspensão de IECA/BRA em pacientes hipertensos com COVID-19. Diante do reconhecido impacto positivo dessa classe de medicamentos em redução de eventos cardiovasculares, os dados reforçam que os benefícios de manter IECA/BRA superam largamente potenciais riscos relacionados ao agravamento da infecção. Além disso, reforçam mais ainda as recomendações já divulgadas por diversas sociedades, como a Sociedade Brasileira de Cardiologia, o American College of Cardiology/American Heart Association e European Society of Cardiology, de não suspender o uso de IECA/BRA rotineiramente em pacientes com COVID-19.

Para ver nossa discussão sobre aspectos cardiovasculares da infecção por coronavírus, clique no link abaixo:

Referências:

Li J, et al. Association of Renin-Angiotensin System Inhibitors With Severity or Risk of Death  in Patients With Hypertension Hospitalized for Coronavirus Disease 2019 (COVID-19) Infection in Wuhan, China. JAMA Cardiol 2020  [epub ahead of print]

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