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Devemos usar aspirina na prevenção primária em pacientes de moderado risco cardiovascular?

Eduardo Lapa
Escrito por Eduardo Lapa

Um dos principais estudos publicados no segundo dia do congresso europeu de cardiologia foi o ARRIVE. Enquanto que o uso de aspirina (AAS) no contexto de prevenção secundária (pacientes que já tiveram eventos cardiovasculares prévios) é razoavelmente bem embasado, o mesmo não pode ser dito na prevenção primária (pacientes que nunca tiveram evento cardiovascular). Algumas sociedades recomendam usar o AAS caso o paciente possua um risco cardiovascular estimado em >10% em 10 anos.

Para tentar avaliar melhor a situação, os investigadores do ARRIVE pegaram pacientes com risco cardiovascular moderado (entre 10% e 20% em 10 anos), sem diabetes e randomizaram para usar AAS 100 mg.d ou placebo. O endpoint primário era tempo para ocorrência de um primeiro evento cardiovascular (morte CV, IAM, AVC, AIT ou angina instável).

Foram avaliados 12.546 pacientes. De acordo com o escore de Framingham, o risco dos pacientes foi de cerca de 14% em 10 anos. Já pelo escore SCVD foi ao redor de 17%.

Resultado? Não houve diferença de desfechos entre os 2 grupos (4,29% no grupos AAS e 4,48% no grupo placebo). Na análise de desfechos secundários, houve, matematicamente, uma leve redução de incidência de IAM (1,78% para 1,52%). Como pode-se notar, além de apenas levantar uma hipótese já que o endpoint primário foi negativo, mesmo que fosse 100% confirmada, esta diferença de IAM seria clinicamente pouco significante.

DICA:

  • Quem tem poder de mudar conduta em ensaios clínicos é o desfecho primário. No caso de trial com desfecho primário negativo, a presença de achados positivos nos endpoints secundários servem basicamente para levantar hipóteses.

Além de não ter diminuído desfechos CV, observou-se um aumento na taxa de sangramentos gastrointestinais (0,46% no grupo placebo x 0,97% no grupo AAS).

Um dos pontos levantados na discussão do artigo é a de que o estudo poderia não ter mostrado diferença de endpoint primário pelo fato da incidência de desfechos ter sido bem mais baixa do que o previsto (ficando na casa dos 8-9%). De toda forma, isso serve para mostrar que na prática atual, muitas vezes o risco CV termina ficando abaixo do mensurado nos escores já que outros fatores de risco como hipertensão arterial e dislipidemia são mais ativamente tratados. Com isso, a redução de risco CV geral termina sim diminuindo uma possível vantagem do AAS. Mas querendo ou não isso é uma boa notícia para os pacientes.

Resumo da ópera:

  • O ARRIVE foi um ensaio clínico grande que não mostrou benefícios com o emprego de AAS 100 mg.d na prevenção primária de pacientes com risco cardiovascular presumidamente moderado (estimativa feita por escores de risco como o Framingham e o ASCVD).

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Sobre o autor

Eduardo Lapa

Eduardo Lapa

Editor-chefe do site Cardiopapers
Especialista em Cardiologia e Ecocardiografia pela SBC

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