CARDIO-FIT: o papel da atividade física no controle da FA

fa CARDIO FIT: o papel da atividade física no controle da FA

Vários estudos recentes tem demonstrado a importância da mudança de estilo de vida no tratamento da fibrilação atrial (FA). O estudo LEGACY, apresentado no congresso americano de cardiologia (ACC), mostrou que a perda de peso sustentada esteve relacionada com menos sintomas relacionados à FA e com manuteção do ritmo sinusal em um número maior de pacientes.

O estudo CARDIO-FIT (Cardiorespiratory Fitness on Arrhythmia Recurrence in Obese Individuals with Atrial Fibrillation) foi um estudo observacional com 308 pacientes, que avaliou o impacto da realização da atividade física no controle de ritmo e na melhora de sintomas em pacientes com fibrilação atrial.

Esses pacientes foram submetidos a um teste de esforço para determinar o equivalente metabólico (MET) no início e no final do seguimento. Foi avaliada também a intensidade de exercício físico que eles realizavam ao início do estudo.

Foi considerado melhora do desempenho cardiorrespiratório um ganho de > ou = a 2 METs no final do seguimento.

Recorrência da FA (avaliado por Holter 7 dias) e sintomas relacionados à FA diminuíram significativamente para aqueles que tiveram uma melhora do desempenho cardiorrespiratório (p < 0,001).

Na análise multivariada, os preditores de melhores desfechos foram: desempenho cardiorrespiratório no início do estudo, melhora do desempenho funcional durante o estudo e perda de peso.

Esse é mais um estudo que reforça a importância da mudança de estilo de vida no controle da FA, e mostra que uma melhora no desempenho cardiorrespiratório pode otimizar os resultados benéficos já demonstrados da perda de peso nesse contexto.

Referência: Pathak RK, Elliott A, Middeldorp ME, et al. Impact of cardiorespiratory fitness on arrhythmia recurrence in obese individuals with atrial fibrillation: The CARDIO-FIT study. J Am Coll Cardiol 2015; DOI:10.1016/jack.2015.06.488.

Betabloqueadores podem causar hipercalemia?

cardio e1437153189724 Betabloqueadores podem causar hipercalemia?

Sim, certos tipos de betabloqueadores podem causar hipercalemia. Como?

Dica: Para memorizar de forma fácil que os receptores adrenérgicos participam na cinética do potássio basta lembrar que uma das medidas realizadas para baixar o potássio sérico em pacientes com hipercalemia é a nebulização com beta2 agonistas. Isto porque ao ativar os receptores beta 2 adrenérgicos estas medicações aumentam o fluxo de K extracelular para dentro das células, o que diminui os níveis séricos do íon sem contudo alterar os níveis totais de potássio no organismo.

Bem, se o estímulo beta 2 manda K para dentro das células, o bloqueio beta 2 faz o contrário. Este efeito colateral fica restrito aos betabloqueadores não seletivos, ou seja, os que bloqueiam tanto os receptores beta 2 quanto beta 1 (ex: propranolol). Os agentes cardiosseletivos (bloqueiam apenas os receptores beta 1) como o atenolol não provocam tal efeito adverso. 

O efeito hipercalêmico dos agentes não cardiosseletivos costuma ser relevante na prática clínica? Não, A quantidade total de potássio no corpo não é alterada e caso a função renal esteja normal a carga extra de potássio que fica no extra-celular costuma ser eliminada na urina. Normalmente o aumento do potássio sérico não costuma exceder 0,5 mEq/L. Contudo, em situações específicas como aumento importante de entrada de K na dieta, doença renal crônica em fase terminal, hipoaldesteronismo (que já aumenta per si os níveis séricos de K) estes aumentos podem ser mais relevantes e causar problemas ao paciente.

DICA: em pacientes com doença renal crônica em estágio avançado que precisam usar betabloqueadores, preferir o uso de agentes cardiosseletivos. 

Fonte: Uptodate. Major side effects of beta blockers. 

Como realizar o desmame de betabloqueador?

cardio e1437153189724 Como realizar o desmame de betabloqueador?

No post anterior, vimos quais os possíveis malefícios da suspensão abrupta de betabloqueadores em pacientes que fazem uso crônico da medicação. Hoje veremos a sugestão do uptodate para realizar o desmame seguro destas medicações caso seja optado pelo médico asistente (ex: substituir por um anti-hipertensivo mais eficaz, suspensão por efeito colateral de pouca gravidade).

1- Caso a medicação seja administrada 2 vezes ao dia (ex: carvedilol, propranolol, metoprolol que não seja de liberação prolongada) – baixar para a dose usual apenas uma ve por dia. Posteriormente, deixar a dose usual em dias alternados e por fim, suspender a medicacão.

2- Medicações com tempo de meia-vida mais longo e que são ingeridas apenas 1x ao dia (ex: atenolol, bisoprolol) – diminuir a dose pela metade durante uma semana. Posteriormente usar a metade da dose inicial em dias alternados por mais uma semana. Por fim, suspender a medicação.

Obviamente isto é apenas uma sugestão. Vários outros esquemas igualmente seguros podem ser seguidos. 

Referência: Major side effects of beta blockers. Uptodate.

Por que não devemos suspender abruptamente o uso de betabloqueadores?

cardio e1437153189724 Por que não devemos suspender abruptamente o uso de betabloqueadores?

Os betabloqueadores são medicações muito utilizadas na cardiologia sendo empregados em vários tipos diferentes de doenças (HAS, angina estável, insuficiência cardíaca, arritmias, etc). Eles baixam a pressão arterial, diminuem a ocorrência de angina, prolongam a vida em pacientes com fração de ejeção reduzida e diminuem/previnem certos tipos de arritmia. Em pacientes que fazem o uso crônico deste tipo de medicação a interrupção abrupta da mesma pode causar eventos graves. Entre os mesmos estão: aumento de frequência de angina, aumento de arritmias, aumento na inciência de infarto e mesmo aumento de morte de origem cardiovascular. Exemplos:

1- Propranolol-withdrawal rebound phenomenon. Exacerbation of coronary events after abrupt cessation of antianginal therapy. Trabalho publicado na New England em 1975. Avaliou 20 pctes coronarianos que usaram propranolol 160-320 mg/d durante semanas a meses e que suspenderam subitamente a medicação. Em um período de 2 semanas após a suspensão da medicação 10 metade dos pacientes apresentaram eventos isquêmicos graves incluindo 1 morte súbita, 1 IAM fatal e 1 taquicardia ventricular.

2- The relative risk of incident coronary heart disease associated with recently stopping the use of beta-blockers. Estudo publicado no JAMA em 1990. Estudo de caso controle que avaliou pacientes hipertensos que haviam tido um primeiro evento coronariano em um período de 2 anos (casos) com pacientes hipertensos sem eventos (controles). Na avaliação estatística viu-se que pacientes que haviam suspendido o uso de betabloqueadores de forma abrupta o risco de IAM elevou-se em 4,5 vezes.

O mecanismo que explica este efeito provavelmente é a upregulation dos receptores beta-adrenérgicos devido ao uso crônico do betabloqueador. Assim, os receptores existentes ficam mais responsivos às catecolaminas circulantes. No momento em que a medicação é suspensa, há chance de ocorrer um estado hiperadrenérgico.

DICA: sempre evite suspender abruptamente o betabloqueador de um paciente que faz uso da medicação cronicamente. Preferir o desmame progressivo da medicação.

Esta regra é sempre válida? Não! Caso o paciente apresente alguma contraindicação absoluta à medicação (ex: bloqueio atrioventricular total ou outros tipos de bradiarritmias graves sem que o paciente seja portador de marca-passo definitivo) a mesma terá que ser suspensa imediatamente para evitar complicações graves no curto prazo.

No próximo post veremos uma sugestão de desmame para este tipo de medicação.

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